Sobre ser Mulher

Quando eu tinha 11 anos, comecei a implorar pra que minha mãe começasse a me deixar andar sozinha na rua, nem que fosse apenas para comprar um pão na padaria. Ela, a princípio relutante, viu que não adiantava mais me manter na bolha de proteção e carinho dela, e cedeu. A primeira coisa que ela me disse antes que eu saísse de casa desacompanhada pela primeira vez foi “não sorria. não responda a estranhos. não pare para dar informações.“

Eu nunca tinha parado pra pensar sobre o impacto dessas instruções e o que elas significavam até meados da minha adolescência, quando senti que estava sendo seguida na rua e precisei apressar o passo e abraçar uma desconhecida na rua, chamando-a de tia. E ela, entendendo o que estava acontecendo, não me desmentiu e me acompanhou durante toda a caminhada.

Foi então que me instruíram a andar com as chaves entre os dedos, para que se acontecesse alguma coisa, eu pudesse ganhar tempo para correr. E assim eu fiz desde então, sempre em estado de alerta, desconfiada até das sombras das árvores quando andava sozinha à noite. Porque o maior medo quando se é mulher não é ser assaltada.

As pessoas sempre disseram que eu ligo muito para política e que eu não deveria perder meu tempo com tal coisa. Como eu poderia não ligar para Política quando nasci mulher, latina, brasileira. Como eu poderia não lutar pela garantia dos meus direitos quando nunca me foi apresentada outra opção?

Eu falo tanto sobre Política porque eu não quero um dia ser mãe e ter que dar o mesmo discurso de proteção que recebi para ela. Não quero que ela escute que não pode rir enquanto anda na rua. Não quero que ela se sinta vulnerável ao utilizar algum estilo de roupa. Não quero que ela tenha que andar com chaves nos dedos pra se defender.

Se um dia tiver um filha, quero que ela possa sorrir enquanto caminha tranquilamente na rua com seus fones de ouvido e seus cabelos ao vento. Não quero que ela seja tão séria, tão fechada, tão intocável e desconfiada. Não quero que ela seja igual a mim e nem que ela passe pelo que passei ou escute o que eu já escutei.

Quero que ela seja livre. Que ela alcance a liberdade que eu sempre sonhei. Que ande na rua sem medo, apenas exercendo seu direito.

Mas esse sonho parece um tanto utópico, principalmente depois da última semana, que me provou que é um inferno ser mulher em todos os continentes. Todo dia um direito nosso é revogado, arrancado de nós sem piedade. Não temos direito nem sobre os nossos corpos. E é isso que mais me machuca.

No final das contas, descobri que ser mulher é uma sentença. Não nos querem pelo que somos, mas pelo que temos a oferecer: um útero. Uma fábrica de novos seres humanos, uma máquina de parir, não importam as circunstâncias que estejam por trás da concepção.

Me pergunto se algum dia conseguirei me sentir inteiramente segura em algum lugar. Porque hoje, meu sentimento é de que é terrível ser mulher, em qualquer parte do mundo.

1 Comentário

  1. Teresa Lopes Poeta disse:

    Amei! Parabéns

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