Primeiro de Junho

Era uma manhã de setembro do ano 2009 quando eu prometi a mim mesma que meu destino seria diferente de tudo aquilo que eu cresci enxergando como realidade, quando disse pra mim mesma que não terminaria como a minha mãe. Eu tinha acabado de completar 12 anos na época, e mesmo admirando minha mãe do fundo da minha alma, eu repetia para mim mesma que não poderia aceitar um futuro semelhante para mim.

Eu a amava mais que tudo. Mais do que minha mãe, ela era minha melhor amiga. Mas não conseguia me imaginar vivendo as mesmas dores, no mesmo universo, seguindo o mesmo roteiro. Me doía demais imaginar que, assim como ela, eu poderia desperdiçar meu potencial e meus melhores anos.

Somos muito parecidas – eu e ela, ela e eu. Não fisicamente, mas em jeitos e trejeitos, personalidade, alma. Toda vez que eu a via chorando em seus piores dias – aqueles nos quais ela não conseguia esconder sua tristeza eminente – eu via um espelho. Por saber de nossas semelhanças, eu temia pelo meu futuro. Foi daí que surgiu a promessa: faria tudo diferente. E um dia, ela comemoraria a minha liberdade. A nossa liberdade, pois eu seria as asas que um dia cortaram de suas costas, ainda que ela mesma tenha oferecido a tesoura para ato tão brutal.

Numa das esquinas da vida, as coisas desandaram. O imprevisto – talvez o maior da minha existência – aconteceu em 01 de junho de 2010, exatos 12 anos atrás, quando sua presença se esvaiu em um sopro e seus olhos se fecharam eternamente. Já não poderia assistir meu crescimento, meu florescimento, minha ascensão, ou mesmo comemorar minha liberdade. Já não mais poderia me oferecer seu abraço e eu não poderia mais enxugar suas lágrimas.

Anos e anos se passaram e eu continuei velando seu corpo, ainda que o tivesse deixado num cemitério frio, não condizente à sua personalidade tão calorosa. A saudade, essa palavra tão única que apenas a língua portuguesa é capaz de expressar um sentimento tão intenso, me corroía pouco a pouco. Até que não sobrou nada de mim. Apenas frangalhos de sonhos e do infinito de possibilidades que eu poderia ter sido e alcançado se as coisas tivessem seguido outro rumo.

A dor da ausência, da partida precoce, do adeus que nunca aconteceu por conta da morte repentina, tudo isso ainda está entranhado na minha alma e gravado nas entrelinhas do meu ser. E por longos anos, essa dor me paralisou. Era como se eu visse a vida passar enquanto observava pela janela, com olhos atentos e curiosos.

Mas então, eu acordei, como de um sonho profundo. Olhei pro céu e pedi permissão para, finalmente, enterrar meus mortos, ainda que eu nunca vá esquecê-los. Junto da minha mãe, enterrei a bagagem que fora jogada nas minhas costas depois de sua morte, os resquícios da minha meninice e outros pesos desnecessário que eu insistia em carregar. “Já era tempo”, a vida sussurrava em meus ouvidos.

Ironicamente, hoje também é o dia em que completo 4 meses de uma nova vida, renascimento. Há 4 meses, eu reunia toda a minha coragem numa mala e saía em busca dos meus sonhos. Já dizia a canção de Francisco El Hombre: “ela desatinou, desatou nós, vai viver só”.

Nunca houve um tempo em que estive tão a flor da pele, um misto de sentimentos e de sensações que eu nunca havia experimentado. Todo dia uma surpresa, os caminhos ainda não concretos e a incerteza do amanhã. Mas, ao mesmo tempo, me sinto cada vez mais próxima da sensação de liberdade que eu sempre sonhei.

Pouco a pouco vou perdendo o medo e perdoando meus erros, aceitando minhas vitórias e vencendo meus demônios. Às vezes, dou conta de fazer um pouco de tudo isso ao mesmo tempo numa só tacada. Já não me incomodo com a ideia de vir a ter o mesmo destino de minha mãe: morrer jovem, deprimida e me extremamente machucada em relação à vida. E isso porque eu finalmente entendi que não temos o mesmo destino.

Ainda continuo irritantemente igual a minha mãe, mas somos pessoas distintas. Foi longa e cansativa a jornada até aqui, mas finalmente posso dizer que fiz a minha parte e, de certa forma, acabei cumprindo minha promessa. Eu fiz tudo diferente.

Ainda que eu tenha pensado em desistir muitas vezes ao longo do caminho, ainda que tenha regado meu jardim com incontáveis lágrimas, ainda que eu não consiga enxergar o que está porvir, estou aqui.

Uma janela de 12 anos separa o dia em que achei que era o fim da linha e o dia em que eu renasci em flores abraçada pela esperança.

E que esse sentimento seja grande o bastante para regar nosso vínculo – meu e de minha mãe. Que hoje, de alguma forma, ela sinta meu amor. Que ela me veja escrevendo essas linhas orgulhosas contando minhas conquistas. Que ela saiba que, no final das contas, eu segui meu caminho. E que eu continuo acreditando na magia da vida, como a garotinha que um dia ela carregava nos braços com tanta ternura.

Hoje eu decidi não vestir o luto. E essa foi a decisão mais sábia que eu tomei nos últimos anos.

Ainda que doa, não dói na mesma proporção que antigamente. Ainda que o corte ainda exista, não arde como costumava a arder. A cicatriz continua aqui pra me lembrar de onde eu parei. E para aonde irei. Sempre em frente, rumo ao infinito.

3 comentários

  1. Ágata Cruz disse:

    Lindo! Me tocou profundamente. Obrigada por compartilhar 🙂

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  2. yeonvy disse:

    Lindo texto, você é uma inspiração em tanto!

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  3. Teresa Lopes Poeta disse:

    Maravilha

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