Vincent

Amsterdam, 23 de Maio de 2022.

Eu ouvi falar do nome “Van Gogh” pela primeira vez na escola, durante as aulas de Arte do ensino médio, quando tudo o que sabíamos sobre ele era a informação rasa de que ele era o pintor que havia mutilado a própria orelha. Mas foi somente aos 19 anos, após assistir o filme “Loving Vincent” que eu passei a enxergar a obra além e através do artista.

Após ler pela primeira vez “Cartas a Theo”, eu pude fazer mais do que enxergar a obra além e através do artista, mas também me enxergar através dela. Como um espelho, Van Gogh conseguia expressar em suas cartas ao seu amado irmão, minha própria inquietude da alma.

Sua arte me tocou tão profundamente em conjunto com suas palavras, de forma que eu nunca mais fui a mesma. E quanto mais eu pesquisava sobre vida e obra do artista, mais minha visão de mundo ampliava. Van Gogh pintava para expressar para o mundo o que ele não conseguia externar facilmente, sentimentos tão intensos com os quais ele não sabia lidar. Em uma de suas cartas, ele diz “eu quero tocar as pessoas com a minha arte, quero que elas digam ‘ele sente profundamente, ele tem ternura’.

Quando eu digo que me vejo através de Vincent – e de tudo o que ele representa, eu falo disso: eu também sinto profundamente. E tanta intensidade, esse mar violento de emoções inusitadas, assusta. Muitas vezes, eu também não consigo entender minhas nuances. Inúmeros foram os momentos de penumbra. Comecei a escrever muito jovem para tentar encontrar uma forma de me conectar com minhas próprias emoções e tentar explicar para as pessoas como eu me sentia. Queria que elas sentissem também, como se ao transformar meus sentimentos em escrita eles se tornassem de alguma forma tangíveis, assim como as pinturas de Van Gogh.

É essa essência sonhadora, lúdica, excêntrica que carrego – hoje não mais como fardo, e sim como dádiva – a principal conexão que tenho com meu artista favorito. Quando olho para suas pinturas eu sinto de todo o meu coração o que ele quis expressar. Consigo sentir sua genialidade incompreendida. Consigo sentir o peso da sensação de não pertencimento.

Sempre me senti um peixe fora d’água. Sempre estive nessa busca infinita por um lugar em que eu possa me sentir à vontade, já que minha própria pele nunca foi o suficiente. Mais do que isso, sempre quis ser enxergada e compreendida. Acolhida, aceita pelo que eu sou, sem máscaras. Apenas eu mesma, ainda que carregando meus pesos e flagelos.

Quando escrevo sobre meus dilemas, espero compartilhar um pouco da minha essência com o leitor. Quero deixar um legado baseado na minha intensidade, que um dia me causou tantos problemas e inseguranças. Isso porque, hoje eu sei que minha intensidade de sentir e viver é minha força. É ela que me faz ser quem sou, com todas as minhas peculiaridades que me tornam uma peça única. Gostaria que Vincent tivesse vivido o bastante para descobrir isso sobre ele mesmo.

Eu estou procurando, estou me esforçando, estou nisso com todo o meu coração” ele disse. Seu sonho de ser reconhecido como artista não foi realizado em vida, e é uma pena. Digo isso porque, seu caso não é exclusivo: quantos talentos deixamos de reconhecer em vida, por falta de sensibilidade? Quantos Van Goghs deixamos passar despercebidos ao longo da vida?

Parte de mim se regozija ao ver o Van Gogh Museum lotado pela manhã em plena segunda-feira. Seu sonho se realizou, Vincent, ainda que você não tenha assistido. Você foi capaz de tocar vidas, corações, transmitir sua mensagem e sensibilidade para o mundo inteiro. Suas telas revolucionaram a Arte e o seu conceito atravessou e continuará atravessando gerações.

Mais do que pinturas comercializadas a exaustão, piadas ridículas sobre seu fatídico surto e automutilação e adolescentes compartilhando informações distorcidas sobre sua paixão pela cor amarela, que, de fato, é verdadeira, mas não pelas razões apontadas – Vincent van Gogh foi um gênio. Suas pinturas e seu talento não existiam por conta de sua enfermidade, mas sim apesar dela, como é citado durante o tour no Museu. Um homem a frente de seu tempo e incompreendido por mentes pequenas. Sofreu como um grande artista, aparentemente, tem que sofrer. Fez poesia através de suas pinceladas. Amou demasiadamente. Foi e continua sendo amado. Admirado e, finalmente, compreendido.

Meus planos atuais não incluem ter filhos, pelo menos por um bom tempo. Mas sempre disse que se um dia eu tiver um filho, ele se chamará Vincent. Esse desejo só se confirmou em meu coração hoje ao saber a história por trás do meu quadro favorito, “Amendoeira em Flor”, que foi um presente a Theo e sua esposa pelo nascimento do primeiro filho do casal, que se chamava Vincent em sua homanagem. E foi ele o responsável pela fundação do Museu do pintor em Amsterdam. Se algum dia eu pensei em desistir dessa ideia, agora é definitivo.

Ter visitado o Van Gogh Museum, mesmo em meio a uma chuva tenebrosa, foi a concretização de um sonho. Vincent é assim, me faz acreditar e lutar para concretizar meus sonhos com paixão, que o destino se compadece e faz acontecer.

Que eu possa continuar dessa forma – tão intensa, sonhadora, excêntrica e poética quanto meu adorado pintor. E que meus sonhos atravessem o céu e toque o firmamento. Que minha vida esteja sempre florescendo como a Amendoeira em Flor e tão iluminada quanto A Noite Estrelada. E que eu seja sempre como um de seus

Há a arte das linhas e das cores, mas também existe a arte das palavras, e esta permanecerá.” – Van Gogh

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s