Lições

Você me ensinou a ler em casa, quando eu ainda deveria estar no maternal. Me lembro dos papéis com as vogais gigantes em desenhos que você me dava para colorir. Quando cheguei na classe de alfabetização, eu já sabia juntar as palavras e lia com tanta firmeza e eloquência que parecia um dom, uma pequena criança prodígio superdotada e extremamente habilidosa. Pelo menos era o que você me fazia acreditar: que eu era única e especial, quando na verdade, você era a responsável por todas as minhas façanhas e promessas de sucesso. 

Você me ensinou a questionar e incentivou minha mente indagadora, me nutrindo diariamente com fábulas e outras narrativas cheias de significado que me teletransportavam para outros universos. Ainda que, posteriormente, minha essência questionadora tenha lhe causado alguns incômodos – em certos momentos, posso ter questionado sua própria autoridade – você nunca pareceu se arrepender de ter me instruído dessa forma. Ouso dizer que, pelos seus olhares que revelavam mais do que você gostaria que revelassem, talvez tenha até sentido orgulho ao saber que eu seria uma criaturinha subversiva e que essa minha característica me levaria argumentar e defender meus posicionamentos sempre que necessário. 

Você me ensinou sobre o mundo e como ele funcionava. Seu lado ruim, seu lado bom. A luz e as trevas. O dia e a noite. As polaridades da vida e seu ciclo infinito e repetitivo. E a partir disso, eu concluí sozinha que todos temos nossos altos e baixos, mas o planeta segue seu destino de rotação e translação. Mesmo em meio à escuridão, existe a certeza de que o sol voltará a brilhar em toda a sua majestade.

Me ensinou sobre o tempo e sua efemeridade. Através de conversas profundas e carregadas de sentimentalismo, me fez entender que cada segundo é singular, ímpar. Não somos mais quem fomos há um minuto. Tudo é uma constante transformação. Nós estamos em constante transformação. E mudamos. E crescemos. E nos movimentando. 

Quando eu tinha sete anos, você me ensinou sobre a morte. Me explicou sobre sua inevitabilidade e me disse para nunca temer os mortos ou aquilo que eles representavam: a alegoria da vulnerabilidade. Com uma visão prática e objetiva, me fez entender que o perecimento faz parte da natureza humana e que é a certeza de que o amanhã não nos é prometido que faz a vida adquirir uma certa magia: tudo pode mudar de um dia para o outro e por isso, devemos fazer valer a pena. 

Para ser bem sincera, eu não entendia metade das conversas que tínhamos. Talvez eu ainda não as entenda por completo, mas muita coisa já começa a fazer sentido. Pouco a pouco, vou encaixando as peças do quebra-cabeça e descobrindo novas lições. 

Você sempre dizia que era tão rígida comigo porque não estaria sempre do meu lado e queria que eu me tornasse uma mulher forte, independente e decidida. Você arrancou suas asas e as costurou nas minhas costas para que um dia eu pudesse voar mais alto do que a mente humana consegue imaginar. E ao que tudo indica, você cumpriu sua missão. Tenho um leve palpite de que se ainda não cheguei a ser tudo aquilo que você um dia sonhou que eu fosse, estou cada ano mais próxima. Você, de fato, me ensinou tudo. Ou melhor: quase tudo. 

A única coisa que você não me ensinou foi como lidar com a ausência, isso eu tive que aprender sozinha. Aprendi na marra, quando sua presença foi bruscamente arrancada de mim 11 anos atrás. E, desde então, eu tenho aperfeiçoado a arte de remendar meu coração e suas fendas esperando que um dia essa ferida cicatrize.

Não existem lições no mundo capazes de nos preparar para a saudade. Mas existem alguns métodos paliativos para amenizar a agonia. E é por isso que eu me agarro nas memórias que acalentam minha criança interior – ferida e rechaçada –  e deixo que elas aqueçam minha alma todo primeiro dia do mês de junho. E após tantos anos de prática, eu finalmente aprendi a não deixar que o vento frio do inverno me estremeça. 

Eu sempre vou me lembrar desta data. Eu sempre vou sentir meu peito encolher mediante o desejo que eu tenho de te ver por um último momento e decorar cada mínimo detalhe das suas expressões, dos seus sorrisos e dos seus abraços. Eu sempre vou desejar sua presença em momentos importantes. Eu sempre vou escrever para você. Não é algo que eu consiga evitar. É um movimento involuntário: eu escrevo para você porque você escrevia para mim e eu considero isso uma tradição particular. Mas já não me permito vestir o luto. 

Quero pensar em você e sentir a paz que sua presença me causava. Quero fechar os olhos e sorrir lembrando das nossas aventuras. Quero realizar sonhos – por mim e por você. Não quero chorar. Nem me desfalecer. Quero continuar vencendo meus fantasmas ao invés de velar seus corpos. 

Então hoje eu não vou me lamentar. Não deixarei que minhas memórias me façam retornar para aquele local de dor, frio e cinzento, em que você foi enterrada. Você não pertence àquele lugar. E eu não caibo mais em espaços confinantes.  

– Para minha mãe, Valéria

Me acompanhe também no instagram @capituestaderessaca. Conheça meu primeiro livro de poesias, o “Tudo aquilo que eu nunca disse“, disponível em versão e-book via amazon.

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