A prensa francesa

Eu queria muitas coisas. Nesse exato momento queria uma prensa francesa pra fazer cappuccino em casa. Tava até olhando preço na internet, mas logo um pensamento me surge: eu realmente preciso de uma prensa francesa? Ou ela é mais um fruto das minhas necessidades intensas e momentâneas?

Eu fico martelando essa pergunta na minha cabeça. Às vezes tento justificar o surgimento dessa necessidade com a falta que eu sinto de tomar um cappuccino na rua, porque os cappuccinos em pó que são vendidos nos mercados não são a mesma coisa e aquele cremosinho que é o cappuccino de verdade.

A receita original de cappuccino é a coisa mais simples do mundo, é literalmente café com leite, só que o leite é prensado até ficar numa textura cremosa que se aproxima à perfeição dos deuses do Olimpo e nos é servido naquelas canecas transparentes super alternativas com canela por cima pra dar um sabor.

Quando eu descobri que essa era a receita eu enlouqueci, primeiro porque eu sempre amei cappuccino e segundo pela simplicidade do modo de preparo, parece uma coisa simples de realizar, mediante as ferramentas necessárias. No caso, a tal da prensa francesa, que faz os cafés gourmetizados.

E eu quero muito a prensa francesa. Tipo, muito. Quero fazer cappuccino pra mim mesma toda manhã. Mas também me pergunto: será que eu vou mesmo fazer cappuccino pra mim toda manhã? Eu nem gosto de acordar cedo, quem eu tô tentando enganar?

A resposta é concisa e redonda: eu mesma. Tentando suprir minhas verdadeiras necessidades, preencher minhas verdadeiras ausências com objetos que irão me distrair por um breve momento até que a ficha caia novamente e eu arrume mais uma forma de evitar o conflito com os meus próprios traumas. É como tentar tampar o sol com a peneira, nunca dá certo e a gente ainda sai com uma queimadura de terceiro grau.

Eis um segredo sobre mim: eu tenho um alter ego metido a psicanalista da linha freudiana e ele é chato pra caramba. Eu só queria comprar a droga da prensa francesa e beber meu cappuccino. Tinha mesmo necessidade de cortar minha animação dessa maneira?

Decido, por fim, não comprar a prensa francesa. Talvez seja mais jogo pegar essa grana e investir numa terapia. Ou talvez comprar um batom. Ou aquele livro que tá há tanto tempo na minha lista de desejos. Não, não. Terapia. Definitivamente, terapia!

A prensa francesa eu compro depois, até porque eu nem tenho o dinheiro, maldito seja o capitalismo e sua criação de necessidades artificiais. Mas eu ainda quero muito, muito mesmo, com a força de todos os advérbios de intensidade existentes na língua portuguesa, um cappuccino.

Me acompanhe também no instagram, @capituestaderessaca; meu e-book kindle “Tudo aquilo que eu nunca disse” está disponível na amazon.

3 comentários

  1. Muitoooooooo minha cara ultimamente ———>>>>>>>>>>>>>> #tamojuntasmana

    “A resposta é concisa e redonda: eu mesma. Tentando suprir minhas verdadeiras necessidades, preencher minhas verdadeiras ausências com objetos que irão me distrair por um breve momento até que a ficha caia novamente e eu arrume mais uma forma de evitar o conflito com os meus próprios traumas. É como tentar tampar o sol com a peneira, nunca dá certo e a gente ainda sai com uma queimadura de terceiro grau.”

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  2. Esse texto me lembrou das coisas que eu achava que queria muito, acabei comprando e depois acabaram no fundo de um armário qualquer. Hoje em dia, tenho uma relação melhor com as compras, reflito bastante antes de efetivamente comprar.

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