Não sou obrigada a forçar otimismo

Não sou obrigada a fingir que acredito que o amanhã será melhor e que a esperança ainda corre pelas minhas veias. Eu tô mais seca do que o deserto do Atacama e cansada como se tivesse vivido séculos e mais séculos junto da humanidade. Otimismo não é uma palavra que se encaixa no meu momento. 

Aliás, acho uma baboseira essa coisa de pensar positivo o tempo todo. Nem sempre estaremos no clima de fingir que a vida é uma fantasia e embarcar nas aventuras mirabolantes de uma existência mágica, de dizer gratiluz pro vento, de gritar pro universo palavras chaves de autoafirmação e autoaceitação. Nem sempre eu vou acreditar que a dor tem fim. Às vezes eu só quero me recolher, ficar quietinha na minha, eu e meus pensamentos – nós dois, no mais profundo silêncio, analisando todos os meus pontos e revendo meus conceitos. 

Essa suposta prática de acreditar que a vida é mil maravilhas é pura enganação. É uma historinha que os livros de autoajuda te contam pra tentar te convencer a gastar seu dinheiro com promessas infinitas de paraísos na terra que quase nunca são alcançados.

Veja bem, não estou falando que eu não caio nessas armadilhas: muitas vezes eu mesma as faço. Meu cérebro está sempre no modo gestão de crise, e tem momentos que a forma mais hábil de se enfrentar as minhas nuances existenciais é pensar positivo. Talvez porque naquele momento eu não tenha encontrado as respostas para as mazelas circunstanciais que insistem em me cercar. Ou talvez porque falam tanto do pote de ouro no final do arco-íris que eu me senti forçada a enfrentar a tempestade de cabeça erguida, para aguardar a recompensa. 

Mas todo guerreiro merece um descanso. Merece um local de resguardo, afastado da barulheira da multidão. Repousar, relaxar, esfriar a cabeça, deixar os pensamentos fluírem livremente, curando as dores da alma e cicatrizando as feridas do corpo. 

É preciso uma pausa. Uma folga. Umas férias bem longas. Uma trégua. É isso. Trégua. Levanto a bandeira branca nessa guerra de egos que me faz queimar o estômago o tempo todo. Só quero paz. 

Se eu encontrar o pote de ouro algum dia, tudo bem. Mas enquanto isso não acontece, eu tenho o direito de continuar velando as partes de mim que morreram nesse doloroso processo de regeneração. A metamorfose não é simples, o preço das asas eu paguei com meu próprio sangue. Sem dor não tem progresso, é o que eles dizem. Às vezes é necessário abrir mão do paraíso da ignorância para alcançar a liberdade em sua plenitude e encarar o peso da lucidez. 

Mas que dói, dói. E a dor, latejante, me aperta o peito diariamente. Então, por favor, me deixe sozinha, com minhas peças de quebra-cabeça e meus retalhos. Não quero pensar positivo hoje. Quero sentir a dor e entender o que ela tem a me dizer, ou pelo menos tentar. 

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