Incompleta Completude

Eu cresci com um complexo de inferioridade que me corroía de diversas formas; me achava desinteressante, apagada, sem brilho. Como se, no meio de vários vagalumes, eu fosse uma… vespa?

Durante a adolescência, essa síndrome de impostora se agravou e se apossou, não somente dos meus pensamentos, mas também dos meus sentidos. Me sentia mal, deslocada, por não ser a mais bonita, ou a mais brilhante, ou a mais cortejada. Acreditava que receber flores, cartas e poemas me tornariam mais especial. Acreditava que atrair os olhos masculinos me tornariam mais “completa”. E esperava por isso, mas nunca acontecia.

E eu fui crescendo, assistindo minhas amigas encantando seus namorados, recebendo declarações, presentes, clichês que a gente vê em filmes de romance (os meus preferidos), mas eu sempre assumia o papel coadjuvante. Eu era sempre a amiga, nunca a namorada. Era sempre a ouvinte, nunca a desejada.

Com o passar do tempo, surgiram os questionamentos: o que há de errado comigo? Por que não sou digna dessas demonstrações de afeto e carinho? E as respostas foram as mais diversas possíveis: “você intimida os homens”, “você fala demais”, “você pensa demais”, “você escolhe demais”, e, aparentemente, o excesso incomoda.

Agora vamos voltar à fase primordial da formação do nosso ser: a infância. Eu tive uma mãe maravilhosa. Eu sei que todos os filhos falam exatamente a mesma coisa de suas mães, mas a minha foi excepcional. Quando ela descobriu que estava grávida, começou a escrever para mim, e continuou fazendo isto até os nossos últimos dias juntas. E parece surreal imaginar que, antes que as células que compõem o que eu atualmente chamo de “corpo” assumissem uma forma, ela já escrevia para mim.

Um tempo depois, quando eu tinha 3 anos, meu tio, outra pessoa que exerceu (e ainda exerce) um papel fundamental na minha vida, se mudou para o exterior em busca de uma nova oportunidade de vida. Mas, nossa ligação nunca se enfraqueceu por conta dessa distância territorial e, mesmo separados por um oceano, ele também me escreveu um livro, contando suas aventuras na nova terra e sonhando com o dia que poderia compartilhar esse novo horizonte comigo.

A escrita de alguma forma sempre me deu o encaixe perfeito daquilo que me faltava, ou, melhor dizendo, daquilo que eu achava que me faltava. Pois através de textos, cartas e poemas que me foram dedicados pela minha família, eu fui moldada e hoje me tornei a pessoa que sou, amante do sentimentalismo à moda antiga, que busca enxergar o belo – em todos os sentidos.

Eu demorei muito para perceber que nada me faltava, e que, na realidade, eu sempre tive muito mais do que a maioria das pessoas almejam ter. E eu realmente sou um excesso. Sou o demasiado – demasiadamente apaixonada por tudo aquilo que eu me proponho a fazer (e a amar).

Eu amei, amei muito. Ainda amo. E fui amada. E ainda sou muito amada. Talvez, não de uma maneira convencional, mas, acredito que o amor não é um sentimento que deve seguir uma regra. Amor é amor. Em todas as suas cores, formas e expressões.

A verdade, em sua essência, é que eu nunca precisei de cartas e declarações de admiradores, pois o amor que eu recebi durante a minha curta existência nesse plano material, foi muito maior. Cartas de amor não podem saciar uma alma que já recebeu um livro inteiro de romance.

Com todo respeito àqueles que ainda precisam dessas demonstrações como uma maneira de autoafirmação: os clichês, para mim, já são muito superficiais. O que eu quero, busco – e espero – é além, muito além.

3 comentários

  1. Priscilla que lindo, queria que minha mãe tivesse feito o mesmo. Essa coisa de escrita sinto mais da parte de minha avó, que mesmo nunca conhecendo, ouso as histórias do quanto ela amava ler, que ela não podia ver um livro que roubava. São coisas estranhas as que nos moldam…
    E já me senti inferior demais pelos mesmo, ou quase, motivos. Sabia que tinha um brilho em mim, então por que mais ninguém via?
    Coisas que só com o tempo vamos entender.

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