Me querem Eva, serei Lilith

Eu deveria estar no quinto ou sexto período da graduação quando a professora de teoria literária trouxe a figura de Lilith para o meu imaginário, e desde então, ela tem sido uma figura presente e constante. 

Eu ouvia várias histórias sobre essa professora. Cada uma mais horripilante que a outra. Puxei a disciplina com medo. Pensei “será que vou sobreviver?”, mas para meu próprio espanto, não apenas sobrevivi, mas tive toda uma vida transformada pela quebra de paradigmas que ela me proporcionou através dos seus conhecimentos.

Ainda me lembro da primeira aula do semestre com a tão sinistra carrasca que haviam me apresentado nos relatos que mais pareciam um filme de terror. Não pude conter a minha surpresa quando vi entrar na sala uma mulher que não deveria passar dos seus um metro e meio de altura, mas tão confiante de si mesma e da própria capacidade, que parecia uma gigante. Ela era absurdamente inteligente e irritantemente elegante, ainda que às vezes soasse mais grosseira do que o esperado. 

A imagem distorcida que eu havia criado dela através das experiências de terceiros me confundia toda quarta-feira. Eu estava absolutamente fascinada por ela e pelo conteúdo que ela me apresentava e por tudo que ela representava, mas não conseguia entender como, e nem o porquê. 

Até que ela falou sobre Lilith. Narrou, com uma eloquência inimaginável, a história da primeira mulher de Adão, a tal da “mulher da criação” que tanto se fala por aí. Reza a lenda que ela fora criada junto de Adão: do mesmo barro fora moldada, do mesmo sopro recebeu o fôlego da vida. Mas, recusou a se deitar sob ele, alegando que os dois eram iguais, e portanto, tinham os mesmos direitos. Por conta disso, abandonou o paraíso, em busca da própria autonomia. 

Existe todo um mistério por trás de sua narrativa. Ela fora simplesmente “apagada” da História e demonizada, atrelada a tudo que as sociedades patriarcais mais abominam: ao poder, à ambição, à sedução, à tempestade, ao desconhecido, à independência. Lilith é o grito entalado na garganta de todas as mulheres que buscam igualdade. 

Naquele momento, numa sala de aula, aos meus vinte e poucos anos, a ficha caiu. Me senti representada por um mito, por uma quimera. Entendi todas as críticas que recebi ao longo da minha vida sobre meus esforços para impor minhas opiniões. Entendi o teor de todas as histórias aterrorizantes a despeito da professora. Entendi o funcionamento da mentalidade patriarcal em sua essência: eles têm medo de mulheres que voam, sejam elas bruxas, deusas, demônios, santas, professoras, alunas, jovens ou anciães. 

Nunca fomos rebeldes. Na verdade, apenas lutamos diariamente pelos nossos direitos, pelas nossas conquistas, pelos nossos ideais. Mas, sempre tentaram nos silenciar, nos moldar, fazer com que sejamos submissas. Sempre ouvi que homens não gostam de mulheres que falam demais, ou fazem demais, ou são demais. E é claro que não gostam, eu se fosse eles também não gostaria da ideia de perder meus privilégios. 

Ainda assim, existimos. Com nossos chapéus pontudos, nossas garras afiadas, nossas línguas aguçadas. E todo dia, abrimos mão de “paraísos” em prol da liberdade. 

Naquele mesmo dia, nos esbarramos pelos corredores da faculdade – eu e a tão temida, ou melhor dizendo, destemida, professora. Eu contei pra ela o quão importante aquela aula havia sido para mim, e então, ela me fez a pergunta chave: e você, é Eva ou Lilith

Não consegui responder, apenas dei um sorriso acanhado de quem sabe que não precisa pronunciar uma só palavra. Ela retribuiu o sorriso e respondeu “eu já sabia, uma Lilith reconhece a outra”. 

4 comentários

  1. Lilith is an interesting character, as one of the oldest of the female demons. While Gilgamesh, where she first appeared, looked for eternal life, I believe Lilith has been more successful in finding eternal life. I believe most people today who know about Lilith, know little or nothing about Gilgamesh. Lilith is 4000 years old and thriving.

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