Mãe nunca erra

Como muitos sabem, minha mãe também escrevia. Talvez, seja uma herança genética. Ok, muito provavelmente não é, mas gosto sempre de imaginar que sim, que o DNA da escrita já corria pelas minhas veias antes mesmo que eu viesse ao mundo, me faz sentir especial.

Mas o ponto aqui é: ela escrevia. Escreveu desde mocinha até o fim precoce de sua vida. Escreveu poesias, desabafos, cartas (muitas cartas), mas também escreveu um livro contando minhas aventuras desde o momento em que descobriu que eu pulsava dentro do seu ventre.

O curioso é que ela descreve alguns aspectos da minha personalidade que me pareciam um tanto peculiar. Em 29 de outubro de 2000, ela descreve a Priscilla de 3 aninhos como “desinibida, elétrica e extremamente comunicativa”, o que soava como uma descrição completamente infiel a tudo que sou e represento hoje. Ou pelo menos, a tudo que eu achava que era e representava.

Eu me considero uma pessoa tímida. Desde que me lembro como gente, ou seja, desde o momento em que tive consciência de mim mesma como indivíduo, fugi de situações que exigissem muito contato social. Fugi de lotações e aglomerações antes mesmo de se tornar uma recomendação da Organização Mundial de Saúde. Fugi de conflitos, de debates, de lideranças, mas, principalmente, fugi da verdade. A verdade sobre mim mesma.

E o porquê de ter feito isso? Talvez nem cinquenta anos de terapia expliquem. Nem se Freud levantasse do túmulo única e exclusivamente para estudar minhas válvulas de escape e meus mecanismos de defesa. Eu simplesmente… travei. Travei em muitos sentidos. Ainda travo, não vou negar, mas numa proporção bem menor.

Talvez tenha sido apenas medo. Medo de me despir, de me sentir exposta, de me mostrar e encarar as consequências dessa ação. Porque, quando a gente se impõe, a gente passa a não agradar. E isso é algo extremamente normal. Nunca foi possível agradar gregos e troianos. Mas, quando somos silenciados, constantemente negligenciados em nossas próprias necessidades, se desenvolve uma compulsão absurda de agradar o outro, mesmo que isso custe a nossa própria felicidade.

Mas não se trata disso, nunca se tratou. O “eu” precisa sobressair. A essência precisa falar mais alto. A consciência precisa ser escutada pois é ela quem responderá a pergunta tão temida, que fez tantos filósofos ficassem reclusos na própria reflexão: quem eu sou?

Quem eu sou, afinal, depois de tudo? Acho que me descobri, de fato, um tanto desinibida, talvez um pouco elétrica, alguém que escreve demais e fala na mesma proporção e, por fim, mas não menos importante, extremamente comunicativa, pois através dos meus textos eu consigo comunicar ideias e expressar sentimentos.

E não é que minha mãe estava certa esse tempo todo? Só me faltava descobrir.

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