Sobre suposições

Do que tenho tanto medo? De me expressar? De me senti vulnerável, de deixar que me leiam como um livro aberto? De dizer as palavras inomináveis que permanecem entaladas na garganta? Ou descobrir quem eu sou e do que sou capaz? De me surpreender, de surpreender a todos? São tantas suposições que até me perco.

Me sento, frente à frente com a minha criança interior. Questiono: o que suponho, afinal? E no que acredito? Sou constantemente sufocada pelas emoções que reprimo. Até tento falar, mas não consigo. Porém, meus dedos sempre deram conta do recado. Papel e caneta na minha mão podem fazer um estrago.

E isso está fora do meu controle. É um impulso, um movimento involuntário, um espasmo. Escrevo como o peixe que precisa da água, como a planta que realiza a fotossíntese. É quem eu sou, quem eu aprendi a ser. Tenho muitas dúvidas, mas essa é a minha única certeza.

Uma vez me disseram que as pessoas que escrevem não são as que têm as respostas e sim as que fazem as perguntas. É por isso que eu continuarei curiosa. E questionadora. E subversiva. Porque a minha percepção de mundo é diferente e meu olhar consegue enxergar além das entrelinhas.

E eu amo isso. Amo falar demais. Amo pensar demais. Amo amar demais. Amo o demasiado, o acúmulo, o exagero que eu sou em toda a minha essência.

E amo compartilhar esses pensamentos desgovernados, intensos e acelerados que sempre me abrem o caminho para universos paralelos.

Costumo acreditar que, porque eu resolvi escrever hoje, uma menina em Tóquio resolveu ser escritora, e um professor da Nova Zelândia decidiu mudar o rumo da aula de História, ou que minha ação foi o impulso necessário pra uma lagarta abandonar o casulo e descobrir que se transformou numa linda borboleta.

Gosto de pensar que sempre estou escrevendo para o outro, apesar de sempre falar de mim. Acreditar que, de alguma forma, consigo tocar vidas através das letras me aquece o coração.

Escrever é sempre sobre a gente: sobre o que sentimos, fazemos e queremos. Mas também é sobre o outro. Sobre quem lê essas histórias, sobre quem se identifica.

Nós, os escritores, temos uma certa tendência à melancolia e muitas vezes acreditamos que escrever é sobre solitude. Contudo, nunca estamos sozinhos. Temos os artistas que fazem parte do nosso repertório, temos os leitores.

Escrevemos, não para nos entendermos, apesar de constantemente estarmos confrontando nossos questionamentos, mas para sermos lidos. E toda vez que alguém lê meus textos, sinto como se estivesse compartilhando um pouquinho de mim.

Mas essas suposições sempre serão suposições, sempre estarão recheadas de medos e inseguranças criados pela minha criança interior, ferida e negligenciada. Ainda assim, elas me dão a certeza de que escrever é o que me faz sentir viva. E que através da escrita, minha alma vibra. É sobre isso, no final das contas. Sempre foi.

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