Vou ensinar às minhas filhas que o amor não machuca

Se eu tiver filhas, me regozijarei e me amaldiçoarei na mesma intensidade. Essa dualidade de sentimentos é causada pelas minhas próprias experiências: pelo que vi, ouvi, senti e vivi. O meu maior medo é que elas se tornem mais uma geração de mulheres feridas por aqueles que deveriam nos acolher.

Fui ensinada desde criança que o amor machuca. Porque era menina, ousada, linguaruda. Não me comportava direito, não falava direito, não existia direito. E ninguém ensinou, de fato, como se ensina na escola. Eu simplesmente entendi. Assimilei. Uma questão de lógica, silogismo.

Pouco a pouco, fui diminuindo, me calando. Tentando me encaixar. Me tiraram a voz e a coragem. Me tiraram o brilho da vida e toda a sapequice de menina que brinca. Fui criada para servir. Somos todas criadas para servir.

Não vi amor, não senti amor. Pois tudo o que eu achei que se configurava como amor se transformou numa dor que me corrói a alma até hoje.

Não sei se algum dia me sentirei inteira novamente. Não sei se algum dia irei recuperar minha autoconfiança. A única coisa que eu sei é que eu tenho bem vivas todas as lembranças dos momentos mais aterrorizantes.

Mas o amor não machuca. O amor não te bate, te maltrata, te xinga. O amor não te empurra, não te ofende. O amor… ah, o amor.

Fui criada por quem não sabia amar. Talvez por conta de um padrão repetitivo, talvez também não foi amado durante a infância. E não podia me passar algo que nunca sentiu. Não estou aqui para me colocar no papel de juiz e bater o martelo. Não quero estabelecer culpados. No final das contas, somos todos vítimas das circunstâncias e dos mal-entendidos. Mas aquilo não era amor. Estava bem longe de ser.

E toda vez que me diziam que tudo aquilo acontecia porque ele me amava, uma parte de mim se esvaía. Prometi a mim mesma que não passaria por aquilo novamente, uma vez que conseguisse escapar das garras que tanto me arranhavam.

Me fechei numa redoma que poucos têm acesso. Sinto falta de coisas que nunca vivi e sensações que nunca senti. O amor que tanto busco me parece uma realidade paralela, um conto de fadas. E a mais remota possibilidade de me abrir me corta a respiração: não tenho coragem.

Eu carrego um buraco no lugar do peito. Às vezes acho que a dor me deixou oca. Fecho os olhos e tento me lembrar do calor do abraço de alguém especial pra sentir o coração bater novamente, só para ter certeza de que ele ainda está aqui dentro. Não custa nada conferir.

E eu sei que o amor não machuca, que não traz dor. O amor de verdade, o genuíno. Quando faz doer o espírito é qualquer outra coisa, menos amor. Eu já entendi. Mas como que eu explico isso para às minhas memórias? Como que eu faço desaparecer os traumas? Como eu enfrento a insegurança?

Um passo de cada vez. Eu já cheguei muito mais longe do que imaginei. Já reconheci meus erros, abracei meus acertos e estou em busca de reconfigurar minhas emoções. Mas, ainda assim, estou calejada.

Por isso, escrevo essa promessa: se eu tiver filhas, elas saberão desde cedo o que é o amor. Homem nenhum tocará nelas, se não for com ternura. Elas jamais precisarão questionar o próprio valor. Elas terão liberdade de ser quem quiserem. Elas serão amadas. E felizes. E livres. E saberão amar, pois entenderão o que é o amor. E jamais, em hipótese nenhuma, irão atrelar um sentimento tão lindo à dor.

Isso é um juramento. Às minhas filhas e às filhas das minhas filhas. Toda uma geração de mulheres que saberão o que é amar. E semearão o amor.

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