Despedidas

Eu odeio despedidas.

Odeio a sensação de nó na garganta e o aperto no peito e a respiração pesada que elas me causam. Odeio dizer as palavras infernais: tchau, te vejo em breve, é hora de partir. Sempre odiei.

Por mais estranho que pareça, eu me lembro da minha primeira despedida. Eu tinha 3 anos e meu tio estava indo para a Suíça em busca de uma nova vida. Obviamente, eu era quase um bebê, não entendia muito porque estavam chorando ou porque ele estava arrumando as malas. Mas ainda assim, aquilo me incomodou como se estivessem me alfinetando a pele ou me dando beliscões.

Com o passar dos anos, houveram mais e mais despedidas e eu fui obrigada a me adaptar à ideia de que o ser humano está em constante movimento. Me despedia dos amigos da escolinha para me mudar para um outro colégio. Me despedia dos meus avós que moravam em outra cidade mas iam me visitar todo final de semana.

Depois, tive que me despedir da minha rotina e me mudar para uma nova cidade. Tive que me despedir da casa que eu tanto amava pois ficava na mesma rua em que morava a minha melhor amiga de infância.

E fui me despedindo. E mudando. E crescendo. E sempre em movimento. Me despedindo da bicicleta com rodinhas e das roupas que não me serviam mais. Me despedindo da minha inocência e meninice. Me despedindo das bonecas. Me despedindo dos sonhos utópicos e infantis que nutriam minha imaginação. Me despedindo da minha mãe, mas dessa vez para um adeus eterno.

Sempre me despedindo. E sempre sofrendo em silêncio, engolindo as lágrimas. Dizendo pra mim mesma que todo adeus é momentâneo e fazendo uma força colossal para incorporar isso como uma verdade.

Hoje, me despedi de novo.

Meu tio, que estava passando as férias comigo, como todo ano, voltou para a terra gelada que, ironicamente, o acolheu tão calorosamente. Enquanto eu fico aqui, com o peso da despedida entalado na garganta e a vontade desesperada de não deixá-lo ir.

Mas deixei. Aliás, não tem nada que eu possa fazer para impedir esse adeus. Ou os tantos outros que me acontecem cotidianamente. Não aceito correntes, nem prisioneiros. Estamos sempre nos despedindo de pessoas, ideias e conceitos. Encerrando ciclos. Fechando portas. Colocando pontos finais em frases que estavam com reticências. Assim é a vida e seu eterno movimento transitório. Tudo é tempo, mas o tempo não é nada. Tudo é efêmero, mas a efemeridade não me agrada.

Eu odeio despedidas. Sempre vou odiar.

Prefiro mil vezes as primícias, os inícios, os (re)começos. Para cada adeus, um até breve. E muito em breve.

7 comentários

  1. Muito bom o seu texto, Priscilla. Ocorreu-me lembrar o poema da canção Encontros e Despedidas, tão famosa na interpretação de Milton Nascimento. É isso aí, gente vai, gente vem. É assim que a banda toca, é “a vida como ela é”, como exclamada pelo escritor Nelson Rodrigues.
    Valeu pela reflexão. Parabéns!

    Curtir

  2. Lo único constante es el cambio, las despedidas también (¿No nos despedimos acaso diariamente de quien -en teoría- volveremos a ver mañana o cada semana?). Despedirse es un ejercicio de desapego, de libertad renovada, si piensas en esto: Puede que también lo odien aquellas personas de quienes te despides. Otro asunto, Priscilla, es la pérdida. Y en eso, tus palabras me resuenan tan sabias y hermosas… Saludos

    Curtir

  3. toda despedida vem com um novo início. Acredito que não são caminhos que se encerram e sim possibilidades que são abertas nesse mundo cão.
    A questão é: teremos competência, sagacidade e estrutura material/mental para aguentar o baque quando as despedidas chegarem?
    Teremos que sempre nos preparar? Acredito que não. A vida é como ela é e sempre foi, no final das contas somos só sombras e pó.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s