Esperança

Minha avó foi vacinada.

E na última noite, eu não dormi. Virava de um lado para o outro, sem conseguir fechar os olhos. Olhava para o teto, sentia meu coração acelerar por causa da ansiedade que me consumia e tentava adivinhar qual seria a minha sensação quando a tão esperada vacina finalmente estivesse no corpo dela. Alívio, pensei comigo mesma. Mas agora, nesse exato momento, percebo que alívio é pouco para definir algo que é indescritível.

Pela primeira vez, não consigo me expressar através da escrita. Nem através da fala. Nem através dos gestos, dos olhares. Simplesmente porque não existem palavras que se encaixem nesse momento. Se eu pudesse utilizar um exemplo para ilustrar a situação, diria que eu estou nas nuvens, flutuando. Mas, ainda assim, não é apenas isso. É muito mais. E tudo ao mesmo tempo.

De fato, existe um alívio. Como se depois de enfrentar tanta penumbra, eu finalmente tivesse encontrado uma luz no fim do túnel. Uma direção. Um norte. Uma estrela guia. Os três reis magos. O papai Noel e o coelhinho da Páscoa. Talvez, até a fada do dente. E, repito: tudo isso ao mesmo tempo. Recuperei a cor que me faltava no semblante, me sinto até mais corada.

Eu chamo isso de esperança. Essa sensação louca de saber que o amanhã será diferente – e ele será. E como a vida é preciosa… como ela é bonita. E como a gente só percebe isso depois de passar por momentos tão angustiantes?

Angústia. A definição do último ano. A incerteza do futuro, a sensação de que estamos todos nos esvaindo, pouco a pouco, sendo dizimados. Estaria mentido se dissesse que essa sensação simplesmente desapareceu. Não. Ela ainda está aqui, no fundo, apegada ao medo de perder ainda mais pessoas, e momentos, e histórias. Mas, hoje, eu só sei sentir esperança – e ela afasta qualquer negatividade.

Quando entramos na sala de vacinação e eu vi a enfermeira abrindo o frasco da vacina bem na minha frente, eu chorei. A emoção tomou conta e quando isso acontece, eu simplesmente não consigo conter. E ela? Também chorou. Mas eram lágrimas felizes, e naquela fração de segundos em que a agulha perfurou o braço da minha avó, eu percebi, mesmo através das máscaras, que todos estavam radiantes, pois nossos olhos sorriam e brilhavam mais do que o sol de janeiro no hemisfério sul.

Pela primeira vez em 1 ano, eu senti esperança. Pela primeira vez em 1 ano, eu me permiti acreditar que tudo vai realmente ficar bem e que vale a pena enfrentar a tempestade porque hoje, tive a certeza de que ela é passageira.

Minha avó foi vacinada, hoje, pela manhã. Mas, fui eu quem recebi a dose da fé.

4 comentários

  1. Um lindo relato. Que a esperança possa renascer a cada vez mais. Não há mal que dure para sempre. Vai passar. Até lá, e depois de lá, rs, sejamos fortes e repletos de compaixão!

    Um grande abraço para você é pra vovó. Que Deus abençoe!

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