Neste fevereiro não tem carnaval

Já não é mais como na música de Jorge Ben. Não tem nem fusca, nem violão. Nem flamenguistas em coro no maraca fazendo a torcida do time de coração. O país continua sendo tropical, é claro. Rio de Janeiro já passou dos quarenta graus e agora está no ponto de ebulição. As praias estão superlotadas, só não mais que os transportes públicos, que refletem o caos da nossa gestão.

Enquanto tentamos voltar à realidade, ou ao que restou dela como um dia a conhecemos, a vida segue seu fluxo.

De dentro do carro, outro dia, vi de relance o centro da cidade no sol quente do meio-dia. Quase chorei. Não sei explicar o motivo, não sou uma dessas cariocas da gema que bate no peito e diz que tem orgulho de ter nascido na famigerada “cidade maravilhosa”.

Talvez seja um misto de sentimentos. A saudade de um mês de fevereiro animado pelas multidões arrastadas naquelas ruas que ali jaziam, vazias. E, enquanto pensava nisso, fui tomada por uma sequência de questionamentos sobre o que o futuro nos reserva daqui para frente.

Sinto que é a hora de se recuperar. O pior já passou, se é que se pode dizer isso. A definição do momento é regeneração – das esperanças, obviamente, mas, principalmente, das nossas forças vitais que quase foram execradas e amaldiçoadas pelo inimigo invisível.

Ainda assim, neste fevereiro, não tem carnaval. Nem as escolas de samba desfilando cultura para dentro de nossas casas e nos animando com o samba, nem os beijos intensos de jovens foliões que se viram apenas por uma fração de segundos mas juram amor eterno, nem as risadas gostosas compartilhadas por amigos em quiosques da praia de Ipanema vendo a banda passar, nem os abraços sinceros de bêbados desconhecidos prontos para estabelecerem novos vínculos.

Nem tudo são flores. É óbvio que o Carnaval tem lá seus defeitos. Mas, quero usar a ausência da festa da carne para ilustrar como somos um povo caloroso. E como isso é bom. E por isso somos únicos.

E mesmo para o brasileiro mais tímido e recatado, é extremamente difícil lidar com o distanciamento social, mas, principalmente, físico. É horrível não dar dois beijinhos ao cumprimentar uma pessoa. É pavoroso não poder abraçar alguém que perdeu um ente querido. É agonizante não poder encostar naqueles que tanto amamos.

A esperança em forma de vacina nos bate à porta, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Que, nesse meio tempo, a gente repense nosso papel como ser social. Que possamos dar mais valor às demonstrações tolas de sentimentos. Uma palavra pode transformar um dia, mas um abraço é capaz de colorir a vida.

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